O Morto e os Vivos

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O cheiro de hospital, o barulho contínuo e agudo dos equipamentos que monitoravam seus sinais vitais e o pequeno quarto destinado aos doentes terminais em que estava, era tudo o que via, ouvia e sentia todas as vezes que voltava a ter consciência, coisa que acontecia dezenas de vezes por dia, visto que com a piora do seu estado, tinha a impressão de passar mais tempo inconsciente do que alerta.

– Meu bem, está me ouvindo? Que bom que você está acordado hoje. As meninas vieram ver você. – Disse sua esposa com os olhos marejados, enquanto segurava aquelas fracas, pálidas e magras mãos entre as suas. – Vai dar tudo certo, você vai ver meu querido. –

Ao reconhecer a voz da mulher, principalmente falando das filhas, Cristiano fez um grande esforço para abrir bem os olhos, virar o rosto e mostrar o melhor sorriso que sua condição permitia-o dar. Sem saber que seria a última vez que faria isso.

Os flashes voltaram a acontecer com grande intensidade. Os momentos de pouca consciência se intercalavam com inconsciência total. Quando voltava, de forma confusa e desorientada, via e ouvia sua família chorar ao seu lado, enquanto sentia o toque das mãos da mulher e também dos pequenos dedos da Juliana, de nove anos, e da Mariana, de oito, suas duas filhas.

Cerca de meia hora depois, sua respiração começou a ficar muito difícil, portanto, manter-se alerta a essa altura já era impossível, tanto por conta da dor, que o assolava quando estava consciente, quanto pelas forças que lhe faltavam para isso.

O bip do monitor começou a indicar que os batimentos cardíacos estavam diminuindo e, com isso, um verdadeiro desespero se instalou na sala, o que fez outros parentes e amigos, que estavam do lado de fora, entrarem no quarto para consolar a esposa e retirar as meninas. Tudo estava claro para os que o visitavam e, de certa forma, também para ele. A hora tinha chegado, teria de enfrentar a morte. Era tempo de provar na prática a fé que há anos professava ter, mas seria mentira se dissesse a si mesmo que não estava com medo, pois estava e não era pouco.

Gritos, choros, sons de aparelhos alertando emergência, palavras de consolo e silêncio. De repente ele já não ouvia mais nada e, olhando para cima, percebeu que a lâmpada de luz forte e branca que ficava sempre acesa acima de sua cabeça já não estava mais lá, nem mesmo o teto estava mais lá. No lugar deles havia outra luz, com o brilho e a intensidade mais potentes e maravilhosos que ele já tinha visto em todos os seus 44 anos de vida.

Enquanto ainda se deleitava com aquela visão extraordinária, a luz veio até ele e, instantaneamente, retirou toda dor e fraqueza, bem como qualquer sinal do câncer que o estava matando aos poucos. Era quente e reconfortante. Poderosa e suave. Ele se sentiu amado, tão amado como nunca antes tinha se sentido. Aquela luz era o amor em pessoa. No meio dela havia alguém. Havia O Alguém. Ele levantou-se do trono em que estava sentado, olhou para baixo, estendeu as mãos, chamou o nome de Cristiano e sorriu.

– Senhor Jesus, meu Salvador! Aleluia! Aleluia! Jesus! Meu Jesus! – Foram as únicas coisas que conseguiu dizer antes de irromper em um choro intenso, mas que não continha nenhuma tristeza, apenas alegria. Na verdade, aquelas eram as lágrimas mais felizes que, para ele, alguém jamais poderia ter chorado na história do universo.

Seu corpo expirou pela última vez, o que precedeu o barulho constante e linear do monitor cardíaco, que confirmava que ele estava morto. Mas ninguém o ouvir falar nada e muito menos viu-o chorar. Só se viu nele um leve semblante que poderia sugerir um pequeno sorriso com o canto direito da boca e uma lágrima bem tímida escorrendo de seu rosto esquerdo, coisa que os médicos depois diriam ser perfeitamente normal e decorrente do corpo parando de funcionar.

Enquanto chorava e glorificava ao Jesus que estava diante de seus olhos, Cristiano viu duas figuras resplandescentes e imponentes, que apareceram perto dele, colocando-o de pé sem que soubesse como tinha levantado. Não via mais a cama, nem o quarto, nem as pessoas. Só Aquele que o esperava lá em cima e os dois homens que, sorrindo, um de cada lado, colocaram as mãos em suas costas. Aquilo fez com que ele começasse a subir em direção ao que tinha se levantado do trono, que o esperava com um sorriso indescritível e com as mãos, marcadas pelos cravos da cruz, estendidas para ele.

Já em uma outra sala do hospital, a maioria absoluta das pessoas estava inconsolável. Tristeza. Choro. Lágrimas. Desespero. Angústia. Tudo isso resumia o ambiente. Contudo, sua esposa, mesmo sentido uma cortante dor de saudade rasgando-lhe o peito, de alguma forma, sabia que Ele estava feliz.

Cristiano correu como nunca tinha corrido antes, direto na direção dAquele que tinha se levantado do trono. Correu como uma criança, sem dor, sem temor, sem lágrimas, sem tristeza, sem câncer, sem pecado. Correu para saltar nos braços do seu Senhor e abraçá-lo com todas as suas forças. Sentindo-se mais feliz que a própria felicidade.

No fim da tarde do outro dia, quando quase todos encontravam-se desesperados e tristes, o pastor que oficiou o sepultamento, Cláudia, esposa de Cristiano, e suas duas filhas, voltaram caminhando pelo cemitério e conversando sobre como ele era um homem de fé e sobre como certamente estava com Deus. O que não amenizou em nada a dor e a tristeza delas, ainda que cressem em tudo aquilo.

Mas se elas, da terra, o pudessem ver com Cristo, festejariam, pulariam, sorririam e glorificariam a Deus por todo aquele caminho silencioso e reflexivo, que era o caminho de volta do sepultamento, no fim da tarde, entre as árvores do cemitério.

E se ele, de onde estava, abraçado com Cristo, as pudesse ver na terra, diria que morrer em Cristo é a melhor coisa que pode acontecer. Diria que podiam ficar tristes por um tempo, por conta da saudade, mas que jamais deveriam permanecer em tristeza ou desespero, porque, afinal, ele tinha chegado em casa e estava esperando por elas…

Só que isso já não está dito nas Escrituras?

O morto em Cristo vive e os vivos só precisam crer no que está dito, pela fé!

Pr. Raphael Melo

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P.S.2: Esse é um trabalho de ficção que visa demonstrar a forma com que os cristãos verdadeiros devem encarar a morte.

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